...Nostalgia
- Hoje eu desejaria morrer.
Fotos na parede, lembranças pelo chão do quarto, marcas das tuas unhas na minha pele, todos os rastros que tu estiveras aqui. Tantos rastros mais nenhuma pista de onde tu possas estar, mas eu sei que posso te encontrar em qualquer lugar, pois nós nos ligamos de tal forma que seria necessário mais de um rio e um mar para nos afastar.
O fim está chamando. E nossa, que saudade, que saudade.
Está tudo mudando. Está tudo mudado. Outras grades já me prendem; Antigas cordas estão puindo. Estão construindo paredes na frente da minha janela. Por ela eu via o passado, eu via... Estão construindo blocos de concreto.
Fecho a minha janela, dou alguns passos até a porta da frente, abro o portão, fecho-o, saio pela rua. Tudo era tão estranho, mas agora se tornou normal, tão normal quanto desejar estar em outras ruas. Vejo pessoas, elas me olham, elas dão passos ora apressados ora lentos demais, seus rostos não se distorcem em nada conhecido, elas não querem ouvir a minha conversa, querem ler meus pensamentos, como uma planta que morre por falta de água ou por águas em excesso. Mas no meu olhar o único mistério é a morte.
As pessoas se sentem sozinhas, elas sobrevivem sozinhas, diferentemente de viver.
Nossos corpos se afastam do abraço. Nossas mãos afrouxam do aperto, nossos dedos abrem espaço, cada vez mais espaço. Entre nós o que resta é o vazio e a nostalgia. Nostalgia de molhar os olhos. Uma parte de nós sempre estará junta, porém essas coisas adormecem, desmaiam e não acordam, mas nos chutam quando em pesadelo.
Ele voltou para casa depois de mais ou menos uma hora, as mãos nos bolsos como uma tentativa de se mostrar ainda mais indiferente ao mundo, só que esse mundo o engoliu. Ele entra em casa, caminha até o próprio quarto, atira a vida que estava sobre cama no chão. Ele deita, ele desmaia, ele dorme, ele morre.
As lembranças ganham poeira num canto do quarto.
O fim chegou e nossa, nossa que saudade... Que saudade.