sexta-feira, 8 de julho de 2011

Colecionador de cadáveres

Desde os fios louros dos teus cabelos, ou do escuro-negro dos teus relativos e até mesmo dos castanhos que desbotam na manhã após. A cor do cabelo é tudo que resta do teu cadáver antes resplandecente, agora apenas uma mortificação cinza. É assim que eu idealizo-te ao te ver respirar perto de mim: “mortificação cinza”.
Meu corpo se move como uma pedra, como as montanhas; lentamente através dos anos, através das estações; mas não importa, eu estou salvo de ti, eu me livrei -na verdade- de te ti.
Teu sangue europeu me engana, ou quase. Se tu não contas, teus segredos estão guardados em mim, mas logo se abrem no teu olhar, no teu desejo, na tua quase vida. Meu melhor ser te cavou um buraco no chão o meu pior preocupou-se em te enterrar. Sim, tu estas no fundo na minha emoção, tu estás a sete palmos do chão do meu coração.



Flores e palidez são disso que me lembro. Ninguém sabe que um quase anjo caiu do céu e se machucou. Flor, do doce aroma ao aranhão do espinho, podes ser tu, também pode ser eu, pode ser das flores do teu enterro. Palidez, da carne que tu olhas no espelho, e o ser que consigo projetar nos passos leves e flutuantes, és tu. Tu poderias ser única, mas para sua surpresa eu sou um colecionador, não de sorrisos, mas de corpos, e tu poderias ser única se não fosses mais uma, apenas mais uma.
Tu podes ver a chuva ou está escuro demais? Tu podes sentir o frio ou está real demais para tu chorar assim?
    Tu não podes ver a chuva nos meus olhos, pois a própria chuva se faz capaz de me esconder.


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