Enche o meu copo, preciso me embriagar. Sei que essa coisa estranha vai me deixar logo. Põe a dose do teu álcool mais forte em um copo de vidro, do mais resistente vidro que tu tiveres, pois sei que esse vidro irá se quebrar, por que, por mais resistente que ele seja, ainda assim é vidro. Por mais resistente que fui, fui quebrado, demorou um pouco para eu saber que aquela parte destroçada no chão fazia parte de mim e de alguns dos meus pedaços, mas agora eu vejo e sinto claramente que eu fui um vidro resistente, porém, assim como o copo resistente e quebrável que tu estarás me servindo, eu quebrei e quebrar-me-ei novamente. Eu sou como um copo de vidro, tornando-me outro a cada estrondo ouvido no chão.
Não sei como foi possível eu me embriagar da dose errada; Talvez eu soubesse que quando dois olhares se cruzam há mais de uma possibilidade. Um olhar pode definir reciprocidade, mas também pode querer dizer dois pares de olhos confrontando-se para manter a distancia, a separação do desejo provocada pelo desprezo.
Não, agora não! Por favor! Mudei de idéia, traga apenas o copo, pois vou enchê-lo apenas com o sangue, o meu sangue, talvez eu bebendo o líquido de mim mesmo esses cacos se colem - como em uma ligação surreal orgânica -, e eu possa tomar uns drinks de uma bebida de verdade, que não tenha gosto de ferro e fel, mas o sabor do alívio de não ter apenas a dor do desprezo em mim, mas conhecer o gosto da reciprocidade.
